Safari na África – Cratera de Ngorongoro na Tanzânia

Safari na África – Cratera de Ngorongoro na Tanzânia

outubro 9, 2018 0 Por lugaresincriveisadmin

É impossível descrever adequadamente o tamanho e a beleza da cratera, pois não há nada com que se possa comparar. É certamente uma das maravilhas do mundo.” As palavras de Bernhard Grizmek, naturalista alemão do começo do século e um dos grandes estudiosos da fauna, flora e ecossistemas da África Oriental, ilustram perfeitamente a sensação que se tem ao primeiro contato com a maior cratera vulcânica inativa do mundo, de 18 quilômetros de diâmetro e área de 260 quilômetros quadrados: Ngorongoro. Localizada no norte da Tanzânia, entre o Monte Kilimanjaro (pico culminante da África, com 5 895 metros) e o Lago Vitória (o maior lago da África e um dos maiores do mundo), a cratera faz parte da área de conservação ambiental de Ngorongoro, que soma 8 300 quilômetros quadrados. Maior que a cidade de Recife, dentro dela existe um mosaico dos ecossistemas do leste africano, com savanas, riachos, lagos, florestas e pântanos, onde habitam milhares de animais selvagens. Há aproximadamente 3 000 búfalos, 8 000 gnus, 7 000 zebras, 100 leões, 400 hienas, 70 elefantes e mais uma infinidade de pássaros.

A cratera de Ngorongoro surgiu há 2,5 milhões de anos, quando o vulcão que existia naquele lugar desabou. Esse vulcão tinha altura quase igual à do Monte Kilimanjaro. Seu interior, porém, era um tanto oco, e o topo sustentado apenas pelas constantes erupções de lava. Quando esta lava começou a ser expelida por buracos formados nas paredes do vulcão, o topo perdeu sua sustentação e implodiu, formando a cratera, cuja borda perfeita tem uma altitude de 2 100 metros. Naquela época — Pleistoceno, era Cenozóica —, a atividade vulcânica era comum na região, pois ela faz parte do Vale Rift africano. Rift é o termo em inglês para designar a área de choque entre duas placas tectônicas, em que ocorre intenso vulcanismo. Como na África a movimentação das placas aconteceu há muito tempo, os vulcões estão extintos. Em outras re-giões do mundo, porém, estão em plena atividade, como no Caribe, Indonésia e Japão — onde, inclusive, está Aso, a maior cratera vulcânica do mundo (368 quilômetros quadrados), na qual ainda ocorrem erupções.

Situada a 120 quilômetros da cidade mais próxima, Arusha, Ngorongoro só é acessível por carro. Para se descer dentro da cratera, é preciso estar acompanhado de um motorista-guia. Cercados de animais, os visitantes são proibidos de sair do carro e transitar a pé, e só podem fotografar e filmar por uma abertura no teto do veículo. Também não é permitido dirigir fora das trilhas, e teoricamente não pode haver mais de cinco carros observando a mesma cena — embora às vezes haja congestionamentos de mais de vinte carros observando o ritual amoroso dos leões.

O ser humano não é novato nesses ecossistemas, pois há na região dois dos sítios arqueológicos mais importantes do mundo: o Vale Olduvai e Laetoli, que ficam a cerca de 60 e 90 quilômetros da cratera, respectivamente. No primeiro foram encontrados os fósseis mais antigos do Homo habilis, nosso antecessor direto, com mais de 1,8 milhão de anos. Em Laetoli estão preservadas pegadas de Australopithecus afarensis, hominídeos que já caminhavam eretos e que provavelmente foram nossos ancestrais, com 3,7 milhões de anos.

Como acontece no Brasil, as áreas de conservação de vida selvagem são ocupadas também por populações humanas — aqui, são os índios que vivem nas florestas. Nos 3% de área de conservação de vida selvagem em Ngorongoro, habita principalmente a tribo Masai, um povo guerreiro e destemido que convive harmoniosamente com os animais. Segundo lendas e crendices, eles são temidos por quase todos os animais, exceto pelos elefantes, que não se acostumam com sua presença. Quanto ao aspecto social, existem certos costumes e tradições essencialmente primitivas, como beber sangue do gado em noites e dias especiais. Para que um homem consiga uma esposa, é preciso ter um bom número de cabeças de gado, pois quanto mais bonita e prendada a moça, mais cabras e bois terá o pretendente de entregar ao pai dela.

Os Masai vivem inteiramente da criação de vacuns e caprinos, não praticando nenhum tipo de agricultura. Suas atividades se integram perfeitamente na savana que predomina na região, um habitat com poucas árvores, onde prevalecem as gramíneas. Habituados à presença de grandes herbívoros, como búfalos, zebras e gnus, os Masai chegaram à cratera há mais de 150 anos, quando entraram em guerra com outra tribo, os Datoga. Após vários anos de conflito, os Masai expulsaram os Datoga e ocuparam a região.

No final do século passado, com a chegada de exploradores e depois colonizadores europeus, cada um brigando para garantir um pedaço do continente africano, a Alemanha ficou com o território que na época era conhecido como Tanganyika. Porém, apesar de várias expedições, poucos europeus decidiram ficar em Ngorongoro. Os alemães dividiram a cratera em duas partes, fazendo plantação de sisal e criação de gado (que era constantemente “apropriado” pelos Masai).

Com a Primeira Guerra Mundial, os alemães foram obrigados a se retirar e os ingleses assumiram o poder sobre a Tanganyika. Como antes, porém, poucos ingleses ocuparam Ngorongoro. Essa situação só veio mudar nos anos 30, com a construção de uma estrada, que abriu a região a visitantes. Em poucos anos, a cratera de Ngorongoro tornou-se uma das maiores atrações turísticas do mundo, por sua beleza e abundância da fauna. A mira dos rifles — a área era usada pelos ingleses para caça — foi substituída pela mira de milhares de máquinas fotográficas.

Em 1951, após a criação do Parque Nacional do Serengeti, houve muitos conflitos entre os Masai e autoridades do Parque, que queriam excluir populações humanas da reserva, causando o desmembramento do Parque do Serengeti e criando em 1959 a área de conservação de Ngorongoro. Os Masai foram transferidos então para o topo da cratera, onde apenas nos períodos de seca estão autorizados a levar o gado lá dentro para beber água e lamber sal, mas não para pastar. Com o turismo intenso, os Masai ganham dinheiro vendendo objetos artísticos, artesanatos, e cobran-do por todas as fotos em que aparecem.